À Espreita Entrevista: Leidiane Garcia

Conheça a professora e musicista que está resgatando a música regional para crianças e jovens pantaneiros.

Olá queridos seguidores do À Espreita. Hoje trazemos uma entrevista um conteúdo um pouco diferente. Normalmente trazemos escritores e poetas para nos contarem um pouco sobre sua história, suas obras, sua luta pela cultura nacional. Hoje, trazemos outra lutadora da cultura nacional, em especial, a sul-mato-grossense, que atua através da música regional. Conheçam a instrumentista e professora Leidiane Garcia.

Evan – Olá Leidiane, é um prazer para nós conversar contigo hoje. Estamos bem curiosos em saber sobre sua história, seus projetos e sobre seu peculiar instrumento, o qual carrega sempre contigo. (Risos). Para quem conhece a professora Leidiane Garcia é impossível desassociá-la dos instrumentos musicais. Como a música entrou na sua vida?

Leidiane – Foi através da apreciação da prática musical de alguns parentes distantes que percebi a música. Já em torno dos 11 anos de idade, expressei a minha mãe, a vontade em aprender a tocar violão; algum tempo depois, ganhei meu primeiro violão que ficou guardado a espera de um professor. Foi aos 13 anos, que iniciei meus estudos do “Violão Clássico” com o professor Anderson Francellino, no Horto Florestal, em Campo Grande. Aos 14 anos, além das aulas de violão clássico particular, também recebi bolsa para estudar o repertório da “Orquestra de Violões de Campo Grande”, com a qual gravei, no ano de 2006, o CD em comemoração aos 10 anos de existência, lançado em 2007, quando deixei de ser integrante. A partir dessas experiências percebi que a música não seria somente um hobby e no ano de 2004, aos 17 anos de idade, passei no vestibular e ingressei na faculdade de Música, da UFMS- Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. Desde então, venho buscando estudar e me aprimorar.

Evan – Como isso te levou ao desejo de ensinar? Conte-nos um pouco sobre a sua trajetória na educação de crianças e jovens.

Leidiane – Como todo(a) instrumentista, não imaginei atuar como professora, afinal, venho de uma família de professora e que deixou evidente a realidade profissional. Porém, logo no primeiro ano de faculdade, aos 18 anos, comecei a atuar em escolas de música e conservatórios, como professora de violão clássico e violão popular. No estágio me aproximei da “Musicalização Infantil”, no SESC Horto. Foi justamente, quando o meu campo de visão e atuação se abriu, pois percebi que não bastava levar um planejamento pronto a realizar era preciso estar disposta a observar e alterar o que havia preparado, de acordo com a reação dos alunos.

Evan – Uma das coisas que chamam a atenção sobre seu trabalho musical, e talvez seja curioso para as pessoas de outras partes do Brasil, é um de seus instrumentos musicais: a viola de cocho. Conte-nos um pouco sobre sua relação com este instrumento e como ele é um diferencial no ensino da música regional.

Festival de Arte e Cultura do IFMS/Corumbá, Viola de cocho Alcides Ribeiro/ MT, em 2018. (Foto: linha do tempo do Facebook)

Leidiane – Em 2008, decidi adquirir uma nova experiência em terreno desconhecido, atuar num projeto social e mudar para uma cidade que não conhecia, Corumbá. Foi em 31 de março que cheguei à cidade para atuar como professora de violão clássico e popular, e, com a responsabilidade de conhecer a viola de cocho junto ao mestre cururueiro Agripino Soares Magalhães (in memoriam), para que então, pudesse iniciar os meus alunos ao instrumento na Escola de Artes Moinho Cultural Sul Americano. Naquele ano criei e fui a regente da “Orquestra de Violões do Moinho”, que realizou apresentações na abertura do “Quebra-torto com letras” no 6 º Festival América do Sul “O Diálogo Multicultural Sul-Americano”, de 29 de abril a 03 de maio de 2009. Já em 2009, tive a oportunidade de aprimorar meus conhecimentos sobre o modo de fazer a viola de cocho, com Alcides Ribeiro e adquirir exemplares do instrumento. Também, conheci a execução da viola de cocho, com o professor Abel Santos Anjos, na cidade de Cuiabá, Mato Grosso. O que tornou possível preparar os alunos para formar um “naipe” de 8 violas de cocho para o “Moinho in Concert O Reino da Rainha Nuvem”, 2009. Posteriormente, ocorreu minha aproximação aos mestres da tradição do Siriri e Cururu de Corumbá e Ladário, entre eles, o mestre Sebastião Brandão.

Evan – Assim como em todo o Brasil, os problemas sociais são constantes e presentes na vida das crianças desde muito cedo. Na sua opinião, como educadora, quais são os principais desafios que enfrentam as crianças e jovens de Corumbá e região?

IV Congresso de Educação do CPAN, apresentação do “Grupo Vocal, de Percussão e Dança do Siriri”, no Auditório Salmão Baruki, 2019. (Foto: linha do tempo do Facebook)

Leidiane – Acredito que um dos desafios seja a dificuldade de acesso e usufruir dos bens culturais de forma efetiva em seu cotidiano. Afinal, não são todos que podem se locomover da Nova Corumbá ao Centro da cidade e participar de uma oficina de construção da viola de cocho, fazer aula de dança e/ ou de um instrumento musical, por exemplo. A cidade tem suas divisões simbólicas. É por isso, que levei para sala de aula a oficina do “modo de fazer” a viola de cocho, o ganzá e o mocho junto ao mestre cururueiro Sebastião Brandão, com apoio do Escritório Técnico do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) de Corumbá/ MS, além de contar com colaboradores da música erudita da localidade. Mas, fiz também o inverso, tirei da sala de aula nossas produções para levar para outros “lugares” da cidade, como: auditórios, espaços abertos e em eventos externos.

Evan – Você tem uma identidade marcante com o “Siriri”, ritmo típico da região centro-oeste. Como surgiu a ideia de trazer o Siriri para dentro da sala de aula? Conte-nos um pouco sobre o “Grupo Vocal de Percussão e Dança do Siriri”.

Leidiane – Inicialmente, decidi apresentar as cantigas do Siriri, junto à prática vocal, devido à ausência de recursos materiais para a iniciação musical dos alunos; e, com a proposta apresentada observei o encantamento dos alunos diante do novo incentivo realizado na aula de Arte, com a Música inserida naquele contexto. Gradativamente, levei meus materiais para as aulas, como instrumentos musicais: viola de cocho, ganzá, o mocho, o violão entre outros. Quando iniciamos a prática musical desses instrumentos, percebi que havia criado a base do grupo que idealizei, o “Grupo Vocal e de Percussão do Siriri”. Então, efetivei ensaios de 1h com alunos interessados em tocar os instrumentos acompanhadores, ganzá (reco-reco de bambu percutido com baqueta feita de osso de costela de boi) e o mocho (banco percutido com baquetas feitas de cabo de vassoura); também, ensaios com o vocal e o “Grupo de Dança do Siriri”.

Evan – Desde 2014, você desenvolve projetos na escola. Conte-nos um pouco sobre o “Projeto Piloto: Música e Patrimônio”, realizado no ano de 2018.

Leidiane – O “Projeto Piloto: Música e Patrimônio” é um dos projetos que realizei ano após ano, desde 2014. Este surgiu da necessidade de estreitar os laços entre a Educação Musical no que tange ao estudo e prática musical, e a questão do Patrimônio Cultural Imaterial dos municípios de Corumbá e Ladário- MS, no que diz respeito ao “modo de fazer a viola de cocho, o ganzá e o mocho” e sua execução, o conhecimento e prática vocal das cantigas do Siriri, e sua dança em pares. Uni esses dois conceitos para estimular as crianças a conhecer, estudar e se apoderar do instrumento, para escrever e tocar suas criações.

Evan – O “Projeto Piloto: Música e Patrimônio” já participou de algumas premiações.  Foi premiado localmente e agora é finalista de um prêmio nacional, o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade 2020, realizado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Ter um projeto finalista, quem sabe até campeão, (estamos na torcida) de um Prêmio nacional, agora entre 121 projetos concorrentes em todo o Brasil deve ser gratificante. Qual a sensação de alcançar esse reconhecimento? Qual a dimensão do retorno que isto pode trazer para o projeto?

Leidiane – Ter o projeto selecionado em uma premiação nacional evidencia estar no   caminho certo, pois é uma ação que permite o diálogo entre a Educação Musical e a Educação Patrimonial, estreitando os conhecimentos teóricos, práticos, da tradição oral e da memória dos envolvidos no projeto. Desde o ano de 2014, tenho buscado escrever projetos para realizar em sala de aula, com o objetivo específico de oferecer aos meus alunos uma aula de Arte significativa, que vá além dos muros da escola. E, assim também, com os projetos realizados, busco sempre sujeitar a premiações, pois é a forma que encontro de divulgar meu trabalho e os resultados alcançados, pois senão, ficarão presos somente a minha memória, sem que tenham possibilidades materiais e simbólicas de ir além, sendo reconhecido.

Leidiane com uma viola de cocho que ela construiu junto ao mestre Sebastião Brandão numa oficina do modo de fazer a viola de cocho realizada no IPHAN/ Corumbá, em 2018. .O “mocho” (banco que está do lado direito), instrumento de percussão, foi feito por Alcides Ribeiro/ MT. A tela do fundo foi feita a pedido dela, com a ideia demonstrar a “postura para execução do violão clássico”, obra do amigo Vitor Hugo. No lado esquerdo, não tão evidente, está uma viola de cocho feita pelo cururueiro Sebastião Brandão.

Evan – Você é Educadora Musical e Mestre em Educação. Conte-nos um pouco mais sobre suas atividades além da sala de aula.

Leidiane – Atuo como professora de Violão Clássico, Violão Popular e Viola de cocho, no final de semana, para alunos particulares e para meus alunos bolsistas. Os alunos bolsistas são aqueles que se destacaram na aula de Arte e que convidei para estudar violão e iniciar na viola de cocho, com autorização e responsabilidade dos pais em levar o (a) aluno (a) até minha residência, uma vez por semana. Paralelamente, ensaio os grupos que criei no ano de 2014, o “Grupo Vocal e de Percussão do Siriri” e o “Grupo de Dança do Siriri”, hoje também chamados de “Grupo Vocal, de Percussão e Dança do Siriri”. Tenho atuado como solista e realizado apresentações com o duo Miranda- Garcia, que integro junto ao tenor Virgílio Miranda. 

Evan – Conte-nos um pouco mais sobre seus próximos projetos, planos, sonhos. O que podemos esperar da Leidiane Garcia em um futuro próximo?

Leidiane – A princípio, a reflexão e análise dos projetos já realizados para sujeitar a publicação. Aproveitar os convites para realização de apresentação executando violão solo, a viola de cocho e junto ao duo Miranda- Garcia apresentando minhas transcrições do repertório da cultura popular brasileira. Repensar formas de realização das “Oficinas do modo de fazer a viola de cocho” desenvolvidas junto ao mestre Sebastião Brandão e ampliar parcerias com profissionais do campo do “Patrimônio”, e da Educação, em Corumbá. Repensar formas de realização dos ensaios do “Grupo Vocal, de Percussão e Dança do Siriri”, objetivando o estudo de novo e antigo repertório para voz, percussão e instrumento de cordas (violão e viola de cocho), e também, agregar parcerias na elaboração dos movimentos da dança. Além da espera e expectativa por resultados positivos do prêmio.

Evan – Que mensagem você deixaria para seus colegas professores de todo o país?

Leidiane – Desejo que tenham a ousadia e a constância em defender sua “área de formação”, em específico, àqueles que escolheram na Arte, a Música, como alimento para o corpo e para o conhecimento.

Evan – Obrigado Leidiane pelo papo inspirador. Nós sabemos que você é bem ocupada e ter conseguido um tempo para conversar com a gente já nos enche de orgulho. Desejamos todo o sucesso em seu trabalho e estamos na torcida pela premiação.

Espero que vocês tenham gostado do nosso bate-papo com a professora Leidiane Garcia. Ver exemplos de dedicação com este é que nos enche de esperança e a certeza de que o Brasil pode dar certo. É um trabalho de formiguinha realizado em vários cantos do país, mas que trazem resultados maravilhosos. Fazer a diferença nas vidas de crianças e jovens é o alimento para o futuro. Fica aqui, nossa homenagem e reconhecimento à professora Leidiane Garcia, assim como à muitos outros educadores e voluntários de todo o Brasil que fazem a educação dar certo!

Publicado por Evan Klug

Escritor, Redator, Roteirista, Produtor de Conteúdo para Web e Analista de Qualidade. Amante da literatura, super-heróis, boa comida e o bom e velho rock n' Roll.

2 comentários em “À Espreita Entrevista: Leidiane Garcia

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