À Espreita Entrevista: Ale Dossena – Escritora

Escritora paranaense conta sobre sua trajetória na literatura em um bate-papo super legal com nossa equipe.

Alessandra Dossena, ou Ale Dossena, como assina seus trabalhos, nasceu em Curitiba, capital do Paraná. Filha de um caminhoneiro e uma dona de casa, ela aprendeu a ler com sua mãe aos cinco anos de idade ao lado do fogão a lenha. Recorda até hoje os momentos mais felizes da infância, quando seu irmão mais velho chegava do trabalho e lhe trazia cadernos e canetas que ela usava para seu passatempo preferido, escrever e desenhar. Desde pequena demonstrou um forte interesse pelas letras e após ler incansavelmente, nas inúmeras visitas à biblioteca da escola, não demorou para se aventurar na escrita. Aos doze anos escreveu sua primeira poesia e a partir daí não parou mais.

Ale Dossena, apesar do seu amor pelos livros, escolheu sua profissão na área de exatas. Graduou-se em Ciências Contábeis, Sistemas de Informação e pós graduou-se em Administração de Empresas. Atuou por mais de vinte e cinco anos na área corporativa, mas nunca deixou de lado a prática da escrita. Recentemente finalizou o curso de Licenciatura em Letras e atualmente trabalha como autora, produtora de conteúdo e apresentadora do canal “Portão Literário” no You Tube, um canal no qual divulga seu trabalho, faz comentários e análises de livros, e promove interações com o público.

Ao longo de sua história de vida acumulou textos e poemas que culminaram em sua primeira publicação, a coletânea de poesias “Sonhando & Poetizando”, no ano de 2012, que lhe rendeu, além do carimbo em seu passaporte literário, também o Prêmio “Destaque Poético 2013” pela Academia de Letras e Artes de Fortaleza, Ceará. O ano de 2013 foi bastante positivo, pois a escritora participou com seus contos literários de várias antologias e acumulou citações e honras, ganhando o prêmio de “Melhor Contista 2013” pela editora portuguesa Mágico de Oz. Não tardou para sua paixão de infância voltar à tona e ainda no ano de 2013, Ale publicou seu primeiro livro de contos infantojuvenis, “O Diário de Lirityl”, marcando de vez sua versatilidade como escritora.

Em 2015, Ale Dossena conquistou o Prêmio Literarte 2015 na categoria de “Melhor Livro Infanto-Juvenil” e o “Trofeo da Casa de Jorge Amado” na Argentina, prêmio que culminou no convite e reconhecimento da autora como membro do Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires.

No total de sua carreira, Ale já participou de mais de quarenta coletâneas de contos e lançou seu quinto livro solo em abril deste ano (2019), “Donatelo, o Dragão Amarelo”, também voltado para o público infantojuvenil.

Nosso editor, Evan Klug, bateu um papo com a Ale e nos trás a conversa que ele teve com a autora.

Evan – Você tem uma carreira bem diversificada pela literatura, livros infantis, coletâneas fantásticas, resenhas, blog, produção de conteúdo e atividades voluntárias. Como você gerencia a divisão de tempo para tantas atividades?

Ale – Uma primeira pergunta um tanto difícil de responder. Desconfio de que, quando fazemos o que gostamos, o relógio toca os ponteiros a nosso favor. Acho importante destacar que essas atividades são inerentes aos meus trabalhos com literatura, mas em paralelo também trabalho com a área corporativa, em minha profissão de formação. Embora atualmente eu trabalhe através da minha microempresa e tenha maior flexibilidade para gerenciar a agenda, ainda me sinto fazendo alguns malabarismos, inclusive para não falhar com a minha família, que merece um bocado generoso do meu tempo. Como dar conta de tudo? Eu acredito que minha carreira na área corporativa me ensinou muito sobre gestão de tempo.

Evan – Quando e por que você decidiu se tornar escritora?

Ale – Não consigo estipular uma data ou motivo específico para ter me tornado escritora. Quando faço um retrospecto da minha vida, percebo que a escrita sempre fez parte de mim, desde que a descobri na adolescência como uma terapia. Se houve alguma decisão, foi a de começar a publicar em 2012, meus escritos guardados após tantos anos. E essa primeira publicação foi um impulso para continuar escrevendo e aperfeiçoando técnicas de escrita.

Evan – Conte para nós um pouco sobre Donatelo, o Dragão Amarelo e como foi o processo de criação do enredo do dragãozinho?

Ale – Donatelo fez parte de uma história que criei para um blog que administrava com uma amiga. Um projeto que durou alguns meses e não conseguimos levar adiante. Eu escrevia histórias pelas temáticas planejadas e nesse caso, precisava de uma história que abordasse a aceitação das diferenças. No ano passado, eu precisei escolher uma história para enviar à editora e o Donatelo (que anteriormente se chamava Tuti) foi eleito para nascer como livro impresso e ilustrado. Quanto ao enredo, nunca usei nenhuma técnica para criar as histórias infantis, elas simplesmente fluíram naturalmente em um período (entre 2013 e 2014) que eu estava envolvida em vários projetos infantis. Naquela época, eu nem tinha iniciado a faculdade de Letras e não tinha feito nenhum curso de escrita.

Donatelo, o Dragão Amarelo

Evan – Donatelo não foi sua primeira obra para o público infantil. Como você começou?

Ale – Quando publiquei “O Diário de Lirityl”, meu segundo livro e primeiro na temática juvenil, foi porque juntei vários contos que escrevi para um colega que utilizou no seu TCC da faculdade. Gostei do resultado e decidi pela publicação. O conto que deu nome ao livro foi um incremento e se tornou um prequel de uma história de fantasia que estou escrevendo há anos e espero finalizar em breve.

Evan – Você está envolvida com projetos voluntários há bastante tempo. Pode falar um pouco sobre eles para nós e qual sua satisfação em participar deles?

Ale – Faço parte de projetos sociais desde 2004, mas iniciei com ações sociais mais diretas, voltadas à alimentos, roupas, brinquedos. Por alguns anos fui responsável por levar o Papai Noel e Coelhinho da Páscoa em ONGs, visitava asilos e orfanatos frequentemente. Essa prática sempre me realizou, me fazia sentir útil ao próximo, fazendo minha “gotinha no oceano”. Mas com a proximidade dessas ações, percebi que doações de itens básicos geralmente são mais fáceis de arrecadar, muitas empresas se envolvem, pessoas se mobilizam mais rapidamente. Mas o conhecimento, a informação, são muito mais inacessíveis. Essa percepção coincidiu com minha decisão de publicar meu primeiro livro, então decidi voltar minhas ações sociais para a democratização da leitura. Em 2015 conheci o Pegaí Leitura Grátis, através do seu idealizador Idomar Cerutti, e me tornei voluntária. Participei de várias ações com o projeto e hoje sou responsável por gravar dicas semanais de leitura para o projeto Pegaí, que são disponibilizadas em várias rádios do Paraná. E claro, também “dou meus pulos” e invento minhas campanhas, como a “Campanha Doe Donatelos”, que tem sido um sucesso, com vários empresários e apoiadores patrocinando doações de Donatelos para escolas públicas e outras instituições, que fazem da leitura um incentivo à superação e autoaceitação, que é a principal temática do livro.

Evan – Você também participa de clubes de leitura. Conte-nos como é participar de um clube de leitura e como ele funciona.

Ale – Já participei de alguns clubes e hoje sou mediadora do Clube de Leitura no SESC Paço da Liberdade, convite que recebi no início do ano. Sou incentivadora dos clubes porque acredito que debater o conteúdo de um livro é ainda mais gratificante que só ler o livro. Cada leitor é único e tem uma interpretação diferente, então trocar visões e experiências, opinar, concordar e até discordar, desde que mantendo o respeito, é extremamente agregador. Afinal de contas, discordar não precisa representar uma ameaça para ninguém, as pessoas são diferentes e certamente quem é aberto para ouvir vários pontos de vista só tem a ganhar em conhecimento. Além disso, os clubes de leitura permitem a aproximação de afinidades e muitas boas amizades surgem para além dos encontros do clube.

Evan – Fale um pouco para nós sobre o Portão Literário.

Ale – O Portão surgiu em 2016, a partir do incentivo do meu esposo André, que conhece um pouco desse mundo dos vídeos e das filmagens. Eu não me sentia apta a falar com a câmera e foi um processo de aprendizado incrível no início, mas hoje sou grata pela insistência dele, porque adoro gravar. O nome também foi ideia dele, queríamos algo que representasse o poder da leitura, como abrir um portão (e não uma porta com ambiente limitado) e enxergar inúmeras possibilidades de paisagem. O objetivo sempre foi abordar diversos gêneros de literatura, o que para mim não é difícil, pois sou muito eclética enquanto leitora. Eu acredito que o hábito de ler precisa começar naturalmente, sem imposições. O leitor precisa descobrir-se leitor e só conseguirá isso lendo um conteúdo que se harmonize com seus gostos, com sua personalidade. Neste ano, atendendo a pedidos, também criei uma série de vídeos voltados para a escrita, o “Divã de Escrita”, onde conto um pouco sobre meus trabalhos.

Evan – Você participou da organização da coletânea Feéricas. Conte-nos um pouco sobre a obra, do que se trata, etc.

Feéricas

Ale – Feéricas foi uma surpresa para nós, as organizadoras (Eu com Lu Evans e Graci Rocha). Começamos sem muitas pretensões, senão a de incentivar novos escritores que gostariam de ter seus nomes publicados e não sabiam por onde iniciar. Decidimos pela temática que era de fadas diferentes e nem imaginávamos que seria tão atrativa. Convidamos a escritora Ana Lucia Merege para participar com um conto e o professor Alexander Meireles da Silva para escrever o prefácio e seus trabalhos agregaram muito ao produto final. O resultado foi uma publicação em e-book que está disponível na Amazon com dezessete contos excelentes, com fadas protagonistas bem estranhas, como a minha, que é uma fada psicóloga de cemitérios e cita muito da cultura do velho oeste americano.

Evan – Você sempre está envolvida em algum projeto. O que podemos esperar da Ale Dossena para os próximos meses. Há algo que possa nos antecipar?

Ale – Estou envolvida em vários projetos e escrevendo um novo livro sem prazo para publicação, que não será para o público infantojuvenil. Adoro trabalhar com as crianças, mas minhas publicações na literatura infanto foram decorrentes das histórias que fluíram naquele período que mencionei. Gosto de escrever outros gêneros e estou em uma fase de muito aprendizado, principalmente nos encontros do NLCAC – Núcleo de Literatura e Cinema André Carneiro, do qual participo há pouco mais de um ano. As coletâneas devem continuar, estamos finalizando a de Natal e acredito que venha outra no primeiro semestre de 2020. Também fui convidada para ser uma das juradas do Prêmio Cubo de Ouro, a maior premiação geek do Brasil, na categoria Literatura Geek. Então minhas leituras do momento estão sendo as indicadas para o prêmio, que será revelado na cerimônia oficial, em outubro. Também aguardando o lançamento do livro “Sombrio”, do autor Rafael Bertozzo Duarte, que me convidou para escrever o prefácio, outra experiência gratificante em 2019.

Evan – Que mensagem você deixaria às pessoas que pretendem seguir a carreira de escritor(a)?

Ale – Algo que sempre falo a quem me pede aconselhamento é de que mantenha os pés no chão. Ser escritor é uma atividade introspectiva, que exige discernimento e amadurecimento. Dizer em alto e bom tom: “eu publiquei um livro” não lhe torna melhor e também não faz de você um maluco. É exatamente a palavra “carreira” que muitas vezes faz a diferença nas conversas que mantenho quando me procuram. Acho que a primeira pergunta a se fazer é: “eu quero a escrita como profissão ou só quero escrever porque isso me faz feliz?” Pode não parecer, mas existe um espaço muito grande aí, dependendo da sua resposta. Seguir carreira de escritor no Brasil é um desafio que exige paciência e integral dedicação. E dependendo do seu bolso, integral dedicação significa não ter retorno financeiro por um bom tempo, talvez muito tempo. É por isso que no meu caso sempre considero a escrita minha “profissão” extraoficial, porque dependo de outra atividade para me manter. Agora, se escrever lhe faz bem, lhe tira da rotina, lava sua alma, vá em frente! Comece devagar, sem almejar carreira, fama ou retorno financeiro, para não se frustrar caso as coisas não aconteçam como você imaginou. Procure conselhos de pessoas experientes e que possuem vivência na área. O futuro ao universo pertence e quando lançamos palavras ao mundo, elas podem voar longe! Quem sabe aonde vão parar? =)

Evan – Muito obrigado mesmo, Ale, por conversar com a gente e parabéns pela sua trajetória e batalha nesse meio, que nós sabemos que não é fácil mas… é gratificante. Muito sucesso para você!

Se interessou pelas obras da Ale Dossena? Temos alguns links para compra abaixo:

Donatelo: O Dragão Amarelo

Feéricas

Publicado por Evan Klug

Escritor, Redator, Roteirista, Produtor de Conteúdo para Web e Analista de Qualidade. Amante da literatura, super-heróis, boa comida e o bom e velho rock n' Roll.

2 comentários em “À Espreita Entrevista: Ale Dossena – Escritora

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