À Espreita Entrevista: Marluci Brasil

Autora fala sobre Música e Literatura através de sua vivência e experiências.

A entrevista de hoje é com a professora aposentada, cantora e escritora Marluci Brasil. Ela é graduada e pós-graduada em Pedagogia, tendo exercido as funções de Professora, Coordenadora Pedagógica e Diretora Escolar.

Evan – Primeiramente é uma prazer e uma honra poder conduzir esta entrevista e também agradecer a tua disponibilidade em conversar conosco. Como foi que a literatura e a música entraram na sua vida?

Marluci – Venho de uma família de musicistas e escritores. A arte da música e da palavra sempre foi uma “zona de conforto” para mim. Escrevi meu primeiro poema aos 9 anos de idade e quando li, gostei do que escrevi e percebi que meu alter-ego alimentava-se da arte da palavra. Com ela eu podia tudo, eu tinha acesso a tudo… até a mim mesma. Comecei a ter cadernos guias. Tinha o caderno azul que era dos conselhos que eu mesma me dava diante das situações, tinha o vermelho que era o meu caderno de broncas, onde eu desabafava e me punia, pelos erros que cometia. A palavra me ajudou a me entender e a crescer; quando adolescente descobri que gostava de cantar e que quando eu cantava as pessoas prestavam atenção em mim. Foi intuitivo comecei a “cantar a palavra que eu nunca deixei guardada dentro de mim.” Fiz parte de corais, conjunto musical na escola, e um dia, no casamento de uma prima, descobri que tinham preparado a festa, mas que tinham esquecido da música para ela entrar na igreja. Meia hora antes da cerimônia eu pedi para um amigo músico me acompanhar, ensaiei com ele 3 musicas que eu sabia “de cor”, e surpreendi a todos. A partir dali cantei em 90% dos casamentos que aconteciam na cidade. Cantar em restaurantes e barzinhos foi num suspiro. Os shows de bilheteria e de abertura de cantores conhecidos nacionalmente foi uma consequência.

Show em Campo Grande de Marluci Brasil entre outros artistas

Evan – Que história , hein? O dom artístico já era assim tão natural em você. Ainda aos 19 anos de idade você venceu um concurso de melhor estudante pelo Rotary Club e recebeu como prêmio uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Conte-nos um pouco sobre esta experiência, inclusive sobre seu lado musical nesta oportunidade.

Show em Campo Grande

Marluci – Sempre fui uma criança, adolescente, jovem traquina… e confesso que não mudei muito não. O Rotary Club de minha Corumbá ganhou uma bolsa de estudos para a América do Norte. Eram 110 estudantes do Brasil todo, e Corumbá tinha direito a uma vaga nesse intercâmbio. Tinha que ter a aprovação dos pais. Meus pais disseram NÃO. Mas eu treinei por 10 dias a assinatura deles dois e apresentei a “autorização” para participar do concurso (risos). 5 escolas participaram. A escola Santa Teresa, o Dom Bosco, o Colégio Maria Leite, a escola Leme do Prado (de Ladário) e a minha escola, na época, conhecida como GENIC. Primeiro foi o concurso interno. Eu ganhei na minha escola, depois foi entre os primeiros lugares de cada escola. Era prova escrita e oral. E eu ganhei as duas. Meus pais souberam que eu estava participando quando assistiram diante da cidade inteira a minha apresentação. Vocês não imaginam a bronca que isso me rendeu. No final de tudo , ganhei o concurso entre os 109 (110 contando comigo) e fui como líder dos estudantes. Foi quando conheci todos os estados dos Estados Unidos porque minha tarefa era entregar cada estudante em sua cidade junto com o representante do Rotary. Morar mesmo eu morei na Pensilvânia, na cidade universitária Edimboro, mas passei 4 meses em Pittsburg, 2 meses em Erie, 2 meses em Sharom e 3 em Midville.

Evan – Como intérprete você teve a oportunidade de abrir shows para ícones da música brasileira como Fábio Júnior e Alcione. Conte-nos um pouco sobre esta trajetória de sucesso.

Marluci – Em Corumbá , era costume ter shows com artistas famosos no Dia das Mães, no Dia dos Pais no JARDIM DA INDEPENDÊNCIA. Era lindo de se ver, o jardim ficava lotado, respirando arte. Barracas com artesanato e comidas típicas, a população acomodada em cadeiras numa plateia a céu aberto , e nós (os artistas da cidade) entretínhamos a população cantando, tocando, declamando, até a hora do show do artista principal. No jardim eu abri show de Beth Carvalho, Alcione, Moacir Franco, Jair Rodrigues, Fábio Júnior, Juci Ibanes e outros que já nem me lembro mais… foram tantos…. show de bilheteria, eu abri o show do grupo MPB4 pelo programa Temporadas Populares. Como eu, outros artistas tiveram também essa oportunidade, como a artista e cantora maravilhosa, Paula Mirhan, quando abriu o show de Oswaldo Montenegro.

Marluci cantando em encontro em Corumbá – MS

Evan – Você é uma das fundadoras do Grupo ALEC. Como foi o início desta luta literária e como você avalia esses quase 50 anos do grupo.

Marluci – No inicio éramos poucos, Liderados pelo Benedito C. G. Lima e por Ângela Maria Peres, nós nos reuníamos na casa de D. Izulina Xavier (uma artista maravilhosa) e ali ficávamos declamando nossas poesias, um sorvendo a arte do outro, até que surgiu a ideia de darmos nome ao grupo e publicarmos nosso primeiro livro. Foi assim que nasceu o livro “Nossa Mensagem”. Depois disso voltamos nossos olhares para as escolas e começamos a fomentar, entre os estudantes da cidade, a ideia de que eles poderiam publicar seus poemas. A coisa foi crescendo e quando percebemos já não éramos uma “ondinha” cultural na cidade. Tsunamizamos a arte da palavra.

Evan – Como poetisa você publicou o livro “Nova Mulher”. Conte-nos um pouco sobre seu trabalho neste livro e quais os temas abordados em seus poemas.

Marluci – O livro “Nova Mulher” , trata em poemas, o amor, mas não o amor sublimado, o amor carnal mesmo. Aquele amor que a maior parte das mulheres sente mas que esconde porque pode parecer despudorado sob o olhar dos moralistas hipócritas. Eu ouvia as amigas relatando seus relacionamentos, suas experiências e transformava em poesia. Não são poemas pornográficos, nem eróticos, são poemas sensuais… Coisas do dia a dia, da noite a noite, do sonho a sonho, da realidade a realidade, sem me importar nem um pouco se quem lê vai se escandalizar ou não. O nome do livro ia ser “À Flor da Pele. Mas como eu não tinha dinheiro para publicar, vendi um dos poemas que estariam no livro para uma gravadora do Rio de Janeiro que na época se chamava Golden Music . Com o dinheiro da venda do poema, eu publiquei o livro, e em homenagem ao poema vendido eu mudei o nome do livro . Coloquei nele o nome do poema: Nova Mulher.

Evan – “Nuvens de Orquídeas” é um romance de sua autoria. O que podemos encontrar nessa história e o que a levou a desenvolver esse romance?

Marluci – “Nuvens de Orquídeas” é um livro escrito a 4 mãos. Duas materiais e duas espirituais. Nele eu narro os momentos vividos anteriores e posteriores ao desencarne de minha irmã Marcia. O que foi visto e sentido por ela, as experiências vividas na espiritualidade que mais marcaram sua evolução no aprendizado da vida pós-morte até o momento em que ela recebe minha mãe na espiritualidade. É um romance espiritualista. Meu livro de cabeceira.

Nuvens de Orquídeas de Marluci Brasil

Evan – O título já parece autoexplicativo no seu livro “Lições de Minha Avó Lucinda”, mas conte-nos um pouco sobre o que podemos encontrar lá e qual sua motivação para escrever e publicar este livro.

Marluci – Minha avó era semianalfabeta , desenhava o próprio nome, uma pessoa doce, amorosa , mas de uma força inigualável. Mais ouvia do que falava, mas quando abria a boca para falar, o próprio silêncio emudecia para ouvi-la. Muito do que sou hoje, muito do que sei hoje, muito do que aprendo hoje, muito do que ensino hoje, vem das lições de vida que ela me deu. Sempre que eu conversava com amigos, parentes, filhos, sobrinhos, alunos, pais de alunos, colegas de trabalho ouvindo desabafos, vinha-me a memória alguma conversa que eu tinha tido com ela, e eu a citava. Ouvi de muitos deles que eu deveria escrever um livro sobre as lições dela. Contei isso para uma amiga/irmã e ela patrocinou a edição do livro. É o meu dicionário de vida.

Lições de Minha Avó Lucinda de Marluci Brasil

Evan – Além de todas as suas atividades já praticadas, hoje você ainda é youtuber também. O que podemos encontrar no seu canal? Deixe aqui também o link para podermos prestigiá-lo.

Marluci – Eu criei o meu canal no Youtube para atender meus alunos online. Um dia uma amiga me pediu para gravar um vídeo explicando o Samba Enredo da Mangueira, que estava rolando uma discussão a respeito, gente chamando de herege e tudo o mais… Eu ouvi o samba e achei lindo. Gravei o vídeo para mandar pra ela pelo whatsapp mas ficou muito pesado e eu mandei pelo youtube. Assustei com mais de 2 milhões de visualizações entre whatsapp, youtube e facebook , em sites, jornais do país todo. Nesse vídeo eu fiz uma interpretação da letra. Recebi o contato do pessoal da Mangueira, e uma camiseta autografada pelo Chico Buarque de Holanda, Maria Bethânia, Alcione, e outros sambistas da escola em agradecimento pelo meu trabalho de interpretação. Fui homenageada no palco da Mangueira numa festa para mais de 25 mil participantes. Depois disso as outras escolas de samba do país todo, e até as Farras de bois do norte do país me solicitaram o trabalho. Em 10 dias, meu canal de 6 seguidos passou para mais de 2 mil, e passei então a fazer interpretações de letras de músicas, de poemas, opinar sobre temas polêmicos, e também a fazer leituras de doenças como a depressão à luz da doutrina espirita, da qual sou seguidora e praticante. No meu canal também posto minhas apresentações, as poucas que tenho como salvas.

https://youtube.com/c/MarluciBrasildeCastro

Show de Bilheteria em Campo Grande

Evan – Quem são suas principais influências, na literatura e na música?

Marluci – Na música é a Elis Regina, Quarteto em SI, Emílio Santiago, Chico Buarque, Tom Jobim, Ivan Lins, Maria Bethânia. Nas letras, Vinícius de Moraes, Chico Anísio, Chico Buarque, J. G . de Araújo Jorge, Cecília Meireles, Clio Proença e Pablo Neruda.

Evan – Que mensagem você quer deixar para seus leitores, fãs e apreciadores do seu trabalho, seja tanto na parte educacional, literária ou musical?

Marluci – Uma frase que ouvi de minha avó, e que nem sei se é dela, mas que sempre me marcou mundo: “ SÓ NÃO MUDA DE OPINIÃO, QUEM NÃO TEM OPINIAO.” Isso mesmo. Tudo é assim, o ciclo da vida é assim. Quando você sentir que acabou é porque está na hora de REINVENTAR. Reinvente-se.

Evan – Projetos futuros. Pode nos adiantar alguma coisa?

Marluci – Tenho vários livros no computador, prontos para serem editados:

⦁ Poemas Soltos
⦁ Fauna e Flora ( poemas e crônicas)
⦁ Inaí (romance)
⦁ Com a palavra A PALAVRA ( ensaio linguístico)
⦁ Confissões de uma estudante (romance autobiográfico)
⦁ À flor da pele (poemas)
⦁ Raízes invertidas (crônicas)
⦁ Por trás do quadro de giz (contos)
⦁ Desmame (crônicas autobiográficas)
⦁ Não era eu… (romance)
⦁ Folhas de outono (poemas)

Evan – Foi um grande prazer conversar com você Marluci, uma pessoa com tanta bagagem cultural e experiências de vida. Fica aqui, novamente, nosso agradecimento e nosso desejo de sucesso em tudo o que fizer.

Publicado por Evan Klug

Escritor, Redator, Roteirista, Produtor de Conteúdo para Web e Analista de Qualidade. Amante da literatura, super-heróis, boa comida e o bom e velho rock n' Roll.

4 comentários em “À Espreita Entrevista: Marluci Brasil

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