À Espreita Entrevista: Gersony Maria Cerqueira

Escritora relembra seus tempos de cantora e sua relação de amor com a música e a escrita. Conta um pouco sobre sua história de dedicação à educação e sua carreira como escritora.

O blog À Espreita tem sempre procurado conversar com grandes autores, muitos deles ainda pouco conhecidos a nível nacional, mas que são de uma importância gigantesca para nossa cultura, diversidade e conhecimento. Ativista cultural, cantora, escritora e poetisa, Gersony Maria Cerqueira também é professora aposentada, formada em Letras e Pedagogia, e hoje conversa conosco falando um pouco seu sobre passado, presente planos para o futuro.

Evan – Olá Gersony. Confesso que foi um prazer pesquisar um pouco sobre você para poder elaborar essa nossa entrevista. É surpreendente como o Brasil é rico em talentos que, por muitas vezes, são desconhecidos do grande público. Na década de 60 a senhora ficou conhecida como a Rita Pavone do Pantanal. Conte para nós como é essa história e com se deu sua relação com a música.

Gersony tem uma forte ligação com a música.

Gersony – Às vezes fico pensando o que chegou primeiro em minha vida, se foi a música ou a escrita de textos. É muito tênue o limiar da época de cada uma. Me alfabetizei antes de entrar na escola, pois era muito curiosa em ler e escrever, e no antigo curso primário, já me destacava com minha redações. Minha mãe me ensinou muito em casa. Logo comecei a participar de um programa de rádio a Hora da Ave Maria e uma vez por semana, eu ela montávamos o texto e na mesma época nasceu em mim , a DECLAMADORA. Em todas as festas , comemorações eu decorava e interpretava uma poesia. Tem algumas que sei até hoje, mas hoje em dia interpreto também as minhas, as de colegas e participei de um outro programa de rádio interpretando minhas e de outros autores poesias durante dois anos. Eu estudava num colégio de freiras Vicentinas, por isso os programas vespertinos da Ave Maria. No mesmo colégio comecei estudar piano, que era próprio das meninas de colégio aprenderem. Só que todos notaram meu dom para música. Nisso comecei a aprender violão e já cantar um pouco, vendo que era afinadinha e tendência a ter bom ritmo. Até então tinha já quase 10 anos e morava em Jundiaí, estado de São Paulo onde nasci e então mudamos para Mato Grosso do Sul, na época Mato Groso, na cidade belíssima de Corumbá. Outra cultura, outro clima, outra vida, outro Colégio, agora colégio de freiras Salesianas. A única professora de piano na cidade na época morreu e meu pai me pôs para aprender acordeon e continuava de algum jeito o violão. Tenho até hoje, o acordeon que meu pai me deu. Tocava por partitura, valsa, boleros e tangos, mas aprendia a tocar as polcas paraguaias , guarânias de ouvido. Nisso começou a fazer sucesso a artista Rita Pavone, e quando eu cantava a minha voz se assemelhava à dela. Nisso, eu já tocava melhor o violão e meu pai comprou-me uma guitarra pois já era o começo do Movimento Jovem Guarda no Brasil, Beatles, no exterior, e cantores famosíssimos na Itália, e entre eles Rita Pavone. Eu vinha para São Paulo com constância e me inteirei de tudo, aprendi um pouco do idioma italiano para saber o que eu estava cantando e comecei a fazer shows, muitos shows beneficentes em Corumbá e várias outras cidades de Matogrosso do Sul, cidades de fronteira, Brasil, Paraguai e Bolívia,e era um prazer muito grande, participei de alguns programas de TV de São Paulo, Rio, e tinha um programa de músicas italianas, também em Corumbá. Minha mãe sempre me acompanhava em tudo. Mas naquela época também cantava na Igreja, algo que no passar da minha vida sempre cantei, e hoje em dia ainda canto algumas músicas tradicionais da cultura pantaneira, nos encontros literários que participo. Cantar também faz parte da minha vida, da minha essência. Como disse no início, não sei quem veio primeiro , a escrita ou a música, mas elas andam juntas em mim. Recentemente, já com idade comecei a aprender viola.

Evan – Que história maravilhosa! E como começou sua relação com a escrita?

Gersony – Minha relação com a escrita, nasceu nos primeiros anos de escola… o prazer e a facilidade para escrever. Mas já na adolescência senti as palavras crescerem dentro de mim de tal forma, que não se contentaram em serem só palavras, mas a se vestirem de poesia, de rimas, de contos!! E eu já comecei a fazer cadernos de poesia, diário ,próprio de meninas daquela época, escrever cartas, exprimir dessa forma os sonhos, as dúvidas sobre a vida que se descortinava perante mim. Nisso pedi ao eu pai que gostaria de estudar numa escola pública. Eu cursava o curso normal. Aliás sou normalista, nome que se dava a quem fazia o curso para ser professora, o curso Normal. Em Corumbá cursei Letras e depois em São Paulo, Pedagogia. Hoje sou professora aposentada e tenho muito orgulho desse meu caminhar na Educação onde também incentivei em meus alunos a poesia e a música!! Faria tudo outra vez. Então fui para a escola Maria Leite em Corumbá e foi ali que tudo começou realmente. Foi lá que conheci o Benedito C. G. Lima, hoje escritor de renome e ativista cultural, autor de muitos livros e criador de muitos projetos educacionais e culturais em Mato Grosso do Sul. Tinha um jornal nessa escola, onde ele ainda em tenra idade participava e me convidou para escrever alguns textos. Pronto, foi o ponta pé inicial. Em seguida ele fundou a ALEC da qual fiz parte desde o começo, e ele já um visionário valente coordenou a primeira Antologia do grupo e eu fiz parte com algumas poesias, foi a minha primeira publicação, há mais de 40 anos atrás, e essa publicação é o meu grande orgulho, o livro NOSSA MENSAGEM. Inclusive, uma das poesias minhas nesse livro até hoje ganha muitos concursos, e eu sempre a declamo nos eventos em que participo, que se Intitula CONCHA DO MAR. Eu a coloquei aqui nesta entrevista. Hoje em dia também faço parte de um grêmio Literário na cidade de Jundiaí que se chama Pedro Fávaro.

Concha do Mar – Poesia de Gersony Maria Cerqueira

Evan – Quais livros ou autores são seus favoritos? Quais você nos indicaria?

Gersony – Eu gosto muito de livros de Poesias e livro de Contos, que são os estilos literários que pratico também. Gosto imensamente de Manoel de Barros, gosto de Saint Exupéry, Richard Bach, Pablo Neruda, Olavo Bilac entre tantos e do grande livro, que é uma biblioteca, que atravessa os séculos, a Bíblia. Estes poucos dos quais falei, com certeza, os indico.

Evan – De onde vêm as inspirações para seus próprios textos, poesias, etc?

Gersony – Tudo me inspira. Situações, meus filhos e netos, observações de coisas pequenas, coisas grandes, conversas, às vezes uma palavra, um olhar, acontecimentos todos, mas principalmente, a natureza rica e bela em suas águas, mar e rio, seus sons, perfumes e cores, animais, sol e lua, entardecer e clarear, todas as criaturas de Deus, a própria vida. O amor.

Gersony buscando inspirações diante do Rio Paraguai

Evan – Você tem uma forte ligação com o Grupo ALEC. Explique para nós um pouco do que se trata o Grupo ALEC e qual sua participação.

Gersony – Como mencionei anteriormente, o Grupo Alec foi a minha base, o meu inicio, o meu alicerce poético, e hoje é o meu grande orgulho em poder fazer parte desde os primórdios da sua criação, onde fiz parte, no florescer da minha adolescência junto aos outros adolescentes tão sonhadores, tanto quanto eu, mas que já em tenra idade, sabíamos da nossa responsabilidade perante a juventude daquela época, sob a batuta do meu queridíssimo amigo Benedito C. G. Lima e tinha outros poetas também de enorme atividade mesmo, eu era mais só poetisa. Todos continuamos na ativa em se tratando de poemas. A sigla ALEC, no inicio, Grupo ALEC, Arte Literária Estudantil de Corumbá, se transformando em Academia de Literatura e Estudos de Corumbá, fundada em 07 de Janeiro de 1972. Recentemente, no ano de 2017, o professor Benedito promoveu um encontro festivo em Corumbá, para comemorar os 45 anos da ALEC, que reuniu de novo até os poetas que se mudaram da cidade e os mais novos participantes do grupo, lançando na ocasião comemorativa uma Antologia especial, com o título Florilégio da Esperança, antologia organizada pelo professor Benedito C. G.Lima e o dr. Germano de Lemos , poeta também desde o inicio da formação do grupo e participante desde a primeira antologia que citei.

Evan – Você já participou de algumas antologias ou coautorias. Conte um pouco sobre elas.

Gersony – Sim. Tenho participação em mais de cem antologias das mais variadas. Antologias de poesia, de contos, de entidades, a maioria de participação de concursos, alguns em que ganhei prêmio máximo também, em várias cidades, estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul e Portugal.

Evan – Uau! É um número impressionante! Vamos falar um pouco sobre o Projeto Passa na Praça que a Arte te Abraça, que já ficou famoso aqui no blog. Conte um pouco mais para nós sobre este projeto e qual a sua colaboração.

Gersony – Esse é mais um grande e belo projeto de Benedito que só tem crescido através dos anos, mas que minha participação , tem sido nas antologias todas que já tem quatro volumes, sendo que fiz o prefácio, de uma delas e noutra o comentário inicial, e colaboro com minhas poesias, em todas as edições. A praça, a qual é palco semanal do projeto, projeto esse muito abrangente, não só de literatura, mas democraticamente da arte em geral, aliás, projeto berço de vários outros projetos afins, que se estendem inclusive até à Bolívia. Projeto modelo para outras cidades e estados, é um local muito querido em meu coração. Ela, a praça, onde acontece o projeto, por tantos anos continua linda, cheia de pontes e aves pantaneiras, rica e centenária vegetação, bancos perpetuamente tradicionais e um coreto maravilhoso!!!

Evan – Além de tudo que já nos contou tem algo mais, que artisticamente, tenha realizado?

Gersony – Praticamente já falei quase tudo, podendo citar experiências também com o teatro desde os tempos dos bancos escolares até os dias de hoje, mas de modo amador. Como declamadora , sou autodidata, é dom mesmo, aliás, arte é um dom que me sustenta.

Evan – Escritores, poetas, artistas de um modo geral, sempre estão envolvidos em um novo projeto. Está preparando algo para ser apresentado futuramente?

Gersony – Sim. Por motivos alheios à minha vontade ,mesmo com um vasto material, não tenho ainda um livro solo. Como eu disse , sou professora aposentada, então das antigas, que tudo fazem no caderno. Colo figurinhas, desenho… Preciso arrebanhar tudo e fazer um livro de poesias, quem sabe dois, e tenho o projeto de um livro, um conto também, já em andamento. Sou muito vagarosa, algo que às vezes é previdente, mas por vezes fico atrasada.

Evan – Que mensagem ou conselho você quer deixar para seus leitores, futuros leitores e colegas de escrita em todo o Brasil?

Gersony – Por falar em colegas de escrita , participei com um prazer enorme num projeto da professora e escritora Cidinha Lima, que já participou numa entrevista neste blog e me é muito querida, num trabalho de despertar o prazer da poesia nos adolescentes de hoje e divulgação dos autores pantaneiros. Um conselho, seria, para todos, independente de qualquer situação ou idade, ESCREVA!!! Uma mensagem, TAMBÉM A TODOS: AME!!!!

Evan – Muito obrigado pela conversa, Gersony, espero que todos tenham apreciado esse nosso bate-papo tanto quanto eu. Desejamos todo o sucesso para você e queremos ser avisados quando sair seu livro solo. (Risos).

Para conhecer um pouco mais do trabalho da nossa querida poetisa vou colocar duas de suas poesias logo abaixo:

Publicado por Evan Klug

Escritor, Redator, Roteirista, Produtor de Conteúdo para Web e Analista de Qualidade. Amante da literatura, super-heróis, boa comida e o bom e velho rock n' Roll.

7 comentários em “À Espreita Entrevista: Gersony Maria Cerqueira

  1. Maravilhosa entrevista, dona Gersony é uma pessoa incrível de um coração bondoso e sempre disposta a fazer o bem, sou admirador de sua existência.

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