Vozes do Joelma – Resenha

Livro reúne 4 contos baseados em fatos e lendas sobre a maldição sobre o Vale do Anhangabaú, mais especificamente sobre o terreno do Edifício Joelma.

Quatro estilos diferentes bem demarcados. Marcos DeBritto, Rodrigo de Oliveira, Marcus Barcelos e Victor Bonini narram quatro histórias e tentam explicar a maldição encalacrada na região do Edifício Joelma.

Embarque em uma viagem pelas mentes de grandes autores do terror nacional, narrando histórias relacionadas com um dos maiores desastres já ocorridos no Brasil: o do incêndio no Edifício Joelma em 1974.

Vozes do Joelma tem a apresentação, do também escritor, Tiago Toy que prefacia cada um dos quatro contos contidos na obra. O objetivo é o de aproximar as diferentes narrativas em volta de um único centro, uma entidade, um ser que comunica-se com o leitor de maneira assustadora e sarcástica, o que funciona muito bem.

Pois bem, vamos as quatro contos de Vozes do Joelma: os gritos que não foram ouvidos.

“Os Mortos Não Perdoam” de Marcos DeBritto

O primeiro conto se passa em 1948, antes do Edifício Joelma existir, na região onde anos mais tarde o edifício arderia em chamas. É narrado em terceira pessoa e conta a história de Pablo, um rapaz que sonha em casar-se com sua namorada. No entanto, existe um grande empecilho: A família dele. Com o decorrer da narrativa o leitor começa a perceber alguns detalhes que vão dando mais corpo ao enredo e se mostram fundamentais para sua conclusão. Pablo é assistente do laboratório de Química da USP e utiliza-se de seu cargo para roubar produtos químicos que ele utiliza para drogar-se. Ele sustenta a mãe e duas irmãs, no entanto é desprezado pelas mesmas e tratado sempre como um serviçal e um fracassado. O relacionamento entre ele e a família é a problemática da história que vai ganhando forma e peso à medida que ele percebe ser impossível casar-se e ser feliz com sua amada e conviver com sua mãe e irmãs. O resultado é um conto muito bem desenvolvido, te prendendo na pele do protagonista e vendo o mundo pela sua ótica.

“Nos Deixem Queimar” de Rodrigo de Oliveira

Também contado em terceira pessoa, este conto trata do incêndio do Joelma em si, em 1974. No entanto, o autor traz personagens e acontecimentos que culminam no desastre em uma narrativa que demonstra toda a sua imaginação visceral. Em um dos escritórios do Joelma, Samara denuncia seu próprio chefe, Gabriel, de ter cometido um terrível crime à polícia. Ele precisa fugir antes que seja pego. As coisas não acontecem como o esperado nem para Gabriel e nem para Samara que veem seu mundo pegar fogo. Este conto, traz uma celeridade maior, é mais violento e sanguinário que o primeiro, que é mais introspectivo e psicológico.

“Os Treze” de Marcus Barcelos

Narrado em primeira pessoa, Os Treze conta a história de Amilton da Correia, um rapaz pobre que enquanto garoto sofre juntamente com a mãe, a violência do pai até que são abandonados por ele. Desde cedo Amilton aprendeu a se virar e a cuidar de si e da mãe doente, tornando-se como ele mesmo se intitula, um “faz-tudo”, um cara “especializado” em serviços gerais. De bico em bico ele se vira como pode até que a mãe morre e ele não tem como enterrá-la. É neste cenário que a história tem uma reviravolta e o seu destino acaba se cruzando com o das treze vítimas que morreram no incêndio do Joelma em um elevador e nunca foram identificadas. A história é muito bem elaborada e vai trazendo o terror aos poucos, na verdade, até demora um pouco para que ele chegue, mas quando chega faz valer à pena. Dos quatro contos foi o que me trouxe uma narrativa mais fluída e gostosa de ser lida, embora todos os quatro sejam muito boas. (Minha opinião).

“O Homem na Escada” de Victor Bonini

O último conto é também o mais longo. Narrado em primeira pessoa pela protagonista, dona Solange, ele traz a linguagem coloquial nos diálogos e nas introspecções da protagonista o que traz um toque de realidade à trama. A história se passa no prédio abandonado, (aqui não ficou bem claro para mim, se é o Joelma depois do incêndio ou antes de acabar a construção ou outro edifício da região) ocupado por uma comunidade de sem-tetos. Dona Solange tem uma filha que está grávida de um vagabundo que as maltrata e está envolvido com o tráfico. De uma maneira ou de outra, dona Solange tenta resolver a situação o que acaba em um crime. Ela recorre a ajuda de um misterioso homem na escada toda vez que precisa de algo para acobertar uma mentira ou um crime, mas tudo tem um preço e uma hora ele será cobrado. No início é possível que estranhe-se a narrativa, pois todo o tempo dona Solange fala com uma voz dentro da sua cabeça, depois que você entende isso fica mais tranquilo. De todos os contos esse é o que, para mim, foi mais perturbador. É tensão do início ao fim, é físico e psicológico e você sua frio junto com a protagonista.

A tragédia do Edifício Joelma é um dos maiores desastres já acontecidos no Brasil com mais de duzentos mortos. Mais de quarenta anos depois ainda vive na memória e assombra a imaginação de muitos. A região toda remonta lendas do período colonial e as atrocidades cometidas contra índios e escravos. Muita dor e sofrimento podem ter feito do local um lugar onde o ódio está preso e o mal acaba se manifestando. Tanto criam nisso que os indígenas nomearam o lugar como Anhangabaú ou, Águas do Mal.

Publicado por Evan Klug

Escritor, Redator, Roteirista, Produtor de Conteúdo para Web e Analista de Qualidade. Amante da literatura, super-heróis, boa comida e o bom e velho rock n' Roll.

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