À Espreita Entrevista – Benedito C. G. de Lima, o Poeta Trovador do Pantanal.

Conheça o poeta, compositor, educador e incentivador da arte que colocou Corumbá no mapa da literatura brasileira.

Benedito Carlos Gonçalves de Lima é o que se pode chamar de “raiz”, poeta raiz, escritor raiz, professor raiz. É um pioneiro. Vindo de uma família humilde o garoto Benedito se transformou em um prodígio da literatura. Mesmo longe dos grandes centros, ele se destacou em tudo que fez. Poeta, escritor, compositor, ativista cultural e do movimento negro, professor, criador de entidades e movimentos culturais.

Eu tive o prazer de conhecer e entrevistar Benedito C. G. de Lima. Confesso que para mim foi uma honra, uma realização, entrevistar um dos pioneiros do ativismo cultural em nosso país. Espero que vocês curtam tanto quanto eu.

Evan – Desde muito jovem o senhor, como muitos brasileiros, passou por muitas dificuldades e privações na infância em Corumbá. Mesmo com muitos afazeres para ajudar a família, a sua paixão pelos livros começou cedo. Como isso aconteceu?

Benedito – Comecei cedo a escrever por estímulo de uma professora, a Eubéa Senna de Almeida, que nos fazia ler e escrever diariamente na Escola Reunidas Estrella do Oriente. A leitura era feita com impostação de voz, postura correta e em pé. E as Redações seguiam um padrão, via contemplar as Gravuras no Flanelógrafo e desenvolver o texto.

Evan – Ainda no período estudantil participou de jornais escolares. Como foi essa experiência? Isso influenciou para que o senhor se tornasse um poeta?

Benedito – No período estudantil, nos idos setenta/oitenta, os Jornais Alternativos mimeografados ou mesmo impressos eram feitos pelos alunos. E nestes jornais havia farta produção de poemas, crônicas e resumos de livros. Todo mundo procurava se primar na escrita, graças às revisões dos colegas que tinham maior domínio de gramática etc. Havia jornais em todas as Escolas. Cheguei a fundar o jornal O NOTURNO, quando frequentava o ginásio de noite. E, já na Escola Técnica de Comércio de Corumbá, criei o CORREIO ESTUDANTIL. Como eu já estava no Ensino Médio, consegui uma brecha num dos jornais da cidade, o Folha da Tarde e comecei a escrever uma coluna literária sobre o movimento cultural.

Evan – O senhor teve músicas de sua autoria que participaram de festivais, sendo interpretadas por cantores da época. Conte para nós como foi isso, e de onde veio seu interesse pela música?

Benedito – A música sempre esteve presente em minha vida, minhas irmãs afetivas tocavam piano e acordeão. E eu ficava a ouvi-las nos exercícios. De repente, num estalo comecei a compor. E apareceu um Concurso em Homenagem ao Centenário da Tomada da Vila de Corumbá. Foi a minha oportunidade. Fiz uma composição e convidei o cantor-mirim Tadeu Vicente Atagiba. Recebi menção honrosa. Mas valeu. Nos anos seguintes eclodiram os Festivais em São Paulo e no Rio, Corumbá não ficou atrás e muitos festivais surgiram. Participei de todos como letrista, compositor e até interprete. E como sempre me preocupava com a qualidade da letra, da música e da interpretação, escolhia pessoas certas para desenvolverem essa parte. Daí logrei sair no primeiro festival com menção honrosa, a minha intérprete, melhor intérprete: Norma Atagiba. No ano seguinte vem o Festival da Música Jovem e lá eu e muitos parceiros entramos com toda força. Eu já estava no Quartel na Banda de Música, tocava pratos e aprendia clarinete, sax. Classifiquei em segundo lugar, terceiro lugar, melhor letra, a minha intérprete, segunda melhor intérprete. Foi a maior emoção da minha vida, ver o ginásio completamente lotado, umas três mil pessoas, cantando o refrão da minha composição: Corumbá Cidade Branca.

Evan – O senhor é criador de alguns movimentos e instituições literárias como a ALEC. O que você pode nos contar sobre a ALEC?

Benedito – A primeira entidade cultural que eu e os amigos criamos foi a Escola Poética Castro Alves, depois a PEC (Poetas Estudantis de Corumbá) e mais tarde, o Grupo ALEC  (Arte Literária Estudantil de Corumbá) que se transformou em Academia de Literatura e Estudos de Corumbá. ALEC foi fundada em 07 de Janeiro de 1972. Praticamente, esta organização cultural liderou e deu origem a todas as entidades culturais. Lançamos livros, organizamos festivais, exposições de artes plásticas, festivais de músicas, festivais de teatro, torneios escolares, mini copa estudantil, mini maratona internacional.

Evan – Pode nos contar um pouco sobre o que foram os projetos “Labirinto Silábico” e “Bingo da Integração”?

Benedito – LABIRINTO SILÁBICO surgiu ante uma situação inusitada. Eu já professor da Rede, todavia, nunca havia lecionado nas séries iniciais, sempre no Ensino Médio ou Ensino Fundamental. Assim que eu fizera um concurso público, sendo aprovado em segundo lugar, fui designado para a Escola Estadual Maria Helena Albaneze e lá a diretora me manda para a Primeira Série (Alfabetização). Eu não sabia nada de prático nessa área. Somente crianças de 7 e 8 anos. E eu perguntei à diretora o que iria fazer. Ela me respondeu: Se vira! Você foi um dos melhores no Concurso. Não esquentei, fiquei imaginando como sair dessa enrascada. Aí como de um lampejo veio a ideia de criar um Jogo para a alfabetização e outras matérias. Baseado no famoso Labirinto grego. As crianças adoraram. Em pouco tempo já estavam lendo. Registrei a experiência e encaminhei para a Revista Nova Escola. E não é que publicaram? Foi um alvoroço na Sala dos Professores. Havia ali, só catedráticos, feras de anos de magistério. Um ano após fiz um outro Concurso Público e me classifico novamente em segundo lugar, mas na Prova de Títulos não apresentei Documentação para pontuar, desci ao terceiro lugar. Então assumi posse na Escola Octacilio Faustimo da Silva. Então surgiu uma Feira Estadual de Ciências. A direção me escolhe para montar um projeto. Fi-lo e coloquei-o na disputa na referida feira. Classificamos em Primeiro lugar com o BINGO DA INTEGRAÇÃO, o mesmo princípio dos bingos, só que integrando todas as disciplinas. Desta feira foi feita uma disputa a nível estadual. Em seguida o Estado do MS criou um Edital de Seleção de Projetos Educacionais e entre os cem selecionados eu passei com o Projeto ALFABETIZANDO LUDICAMENTE, essencialmente voltado para alfabetização além do valor mensal de meio salário para compra de material. Com a entrada do PT no governo, veio aquele discurso de que ao invés de se contemplar apenas 100 professores com Prêmio, iriam melhorar o salário. O que houve foi um achatamento. Suspenderam a bolsa de todo mundo e pararam os projetos.

Evan – O senhor já participou e organizou dezenas de coletâneas poéticas. Você pode citar algumas para nós e se você tem alguma preferida? Existe algum lugar onde elas possam ser adquiridas?

Benedito C. G. de Lima e a antologia Poeta do Café Literário

Benedito – Tive a oportunidade de organizar inúmeras Antologias: A Nossa Mensagem, Impacto Jovem, Ainda Nascem Flores, Poetas do Pantanal, Poetas do Café Literário, Passa na Praça que a Arte te Abraça. Todavia considero a mais importante a A NOSSA MENSAGEM (1972), pois foi a primeira dentre todas que organizei. O marco inicial de tudo. Alguns dos títulos podem ser encontrados na Banca de Revistas do Natércio, em Corumbá – MS.

Evan – Todo trovador é um poeta, mas nem todo poeta é um trovador. Em um país tão grande quanto o nosso e de uma cultura tão rica e diversificada, às vezes, deixamos de conhecer o significado de alguma expressão pertinente à nossa própria cultura. Indo direto à fonte, gostaríamos que o Poeta Trovador Benedito Carlos Gonçalves de Lima nos explicasse o que é poema em trovas.

Antologia Passa na Praça que a Arte te Abraça

Benedito – Na verdade a trova é um poema sintetizado em quatro versos, por isso, nem todo Poeta é Trovador, quando todo Trovador, no fundo, é um Poeta.

Evan – Conte-nos um pouco sobre o projeto “Passa na Praça que a Arte te Abraça”.

Benedito – O Projeto Passa na Praça que a Arte te Abraça, surgiu da necessidade de ocupar os outros espaços, começamos com a Praça da Independência que é bem central, todo mundo que vem ao centro tem que atravessá-la. A princípio foi numa das calçadas que eu, Leninha Dutra e Jamil Canavarros estendemos um tecido no solo e colocamos Livros, puxamos um Varal de Poesia e de Telas. Isso era feita uma vez por mês, sempre no segundo sábado a partir das 9 hs. Com o despertar do interesse do povo, passamos a fazer todos os sábados. Hoje temos Torneios de Xadrez, Damas, Aeróbica, Capoeira, Dança de Rua, Slam, Livros & Revistas no Banco da Praça, Oficina de Stêncil, Artesanato. Existem ideias semelhantes em outras cidades do Brasil, em Minas e até no Nordeste.

Evan – O senhor está envolvido em mais algum projeto literário no momento? O que podemos esperara do poeta trovador para um futuro próximo?

Benedito – São tantas as ideias que fui me esquecendo do projeto de Contação de Histórias, que iniciei nas Escolas e que se transformou na SEGUNDA-FEIRA FANTASIA DE PRIMEIRA, quando eu ia todas as segundas nas outras escolas contar histórias autorais. E a prática disso resultou em participar do Culturas Populares do MinC em 2017, onde concorri fazendo a maior pontuação dentre mais de três mil projetos de todo o Brasil. Fiz CEM PONTOS e recebi o Título de MESTRE DOS SABERES. Estou sempre às voltas com projetos e justamente agora que conseguimos a SALA DO POETA no Museu de Memória de Dr. Gaby será o BATE PAPO COM OS ESCRITORES. Todas as terças e quintas de manhã, para estudantes, professores e outros. Também sou fundador do Movimento Negro, existe até um Painel lá no Museu de História do Pantanal, com minha foto e biografia estampadas na Sala da Memória do Negro em Corumbá.

Poeta Benedito recebendo uma de suas várias condecorações

Evan – Como o senhor mesmo já comentou, em 2017 o senhor recebeu o título de “Mestre dos Saberes” através do Minc. Como foi receber este reconhecimento depois de tantos anos dedicados à cultura e o que isso significou para você?

Benedito – Essa premiação, tem um significado maior, em que pese ter ganho medalhas, troféus, comendas, etc, nesse andar da carruagem desde os meus dez anos de idade. Primeiro porque foi algo a nível nacional, onde um ativista cultural negro conseguiu se destacar. Segundo porque sou um exemplo de resistência, vindo de onde eu vim, criado sem pai, tendo apenas a mãe cozinheira que morava de favor na casa de uma família abastada que nos acolheu dando carinho, educação, respeito e dignidade.

Evan – Sempre que o senhor tem a oportunidade de criticar o descaso político com a arte e a cultura em nosso país, o senhor o faz. Que mensagem gostaria de deixar para as autoridades que detém o poder do investimento, para a iniciativa privada, que poderia ajudar mais com investimentos em cultura e também para nós, meros consumidores da arte, cultura e saber popular?

Benedito – Aprendi durante toda a minha trajetória que não se deve desistir dos seus sonhos. Em vista disso, compete a quem tem um dom, uma Arte, lutar por esta. Acreditar nela. Lutar por ela. Essa firmeza de convicção lhe garante o respeito dos entes, autoridades e os pares. A sociedade em seu todo precisa da Cultura. A Cultura não pode ficar petrificada, cristalizada a cadinho ideológico, ela é livre e pertence a todos. Investir em Cultura acoplada à Educação, resultará em algo positivo, um bem duradouro.

Espero que vocês tenham apreciado a oportunidade de conhecer uma figura tão inspiradora como a do nosso poeta Benedito C. G. de Lima. Muito provavelmente, a não ser que seja da região, você não terá a oportunidade de ir até a banca do Natércio para adquirir um exemplar das antologias organizadas pelo nosso poeta pantaneiro. Então, não só como mais uma entrevista, o blog À Espreita, gostaria de homenagear Benedito C. G. de Lima disponibilizando alguns de seus versos.



Publicado por Evan Klug

Escritor, Redator, Roteirista, Produtor de Conteúdo para Web e Analista de Qualidade. Amante da literatura, super-heróis, boa comida e o bom e velho rock n' Roll.

Um comentário em “À Espreita Entrevista – Benedito C. G. de Lima, o Poeta Trovador do Pantanal.

  1. Bela entrevista com esse poeta visionário, incapaz de desistir,resistente, luta bravamente para que o nome da nossa cidade e seus poetas, encontrem espaço s no senário externo de seu habitar. E mais esse que criou os versos de Poema Pra Ela só poderia ser ele, o maior poeta de Corumbá meu amigo e parceiro Benedito C G Lima. Sua luz brilhará muito mais, assim veremos, sua semeadura têm sido farta, você têm muito a colher. Sucesso!

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